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Será que as mulheres são mais sustentáveis que os homens?



Você já se perguntou por que a maioria dos produtos ecológicos são comercializados para mulheres? O artigo "A disparidade ecológica de gênero: porque é que salvar o planeta é visto como um trabalho das mulheres?", escrito por Elle Hunt em fevereiro de 2020, aborda essa tendência intrigante. De absorventes reutilizáveis a cosméticos em embalagens sustentáveis, parece que o mercado verde é cor-de-rosa.


Mas será que sempre foi assim? Vamos dar uma olhada na história para ver como as mulheres deixaram sua marca no movimento ambiental.


Um olhar para a história

Os Gases do Efeito Estufa foram identificados por uma mulher

No século XIX, enquanto a ciência ainda lutava para entender o complexo sistema climático da Terra, Eunice Foote, lançava as bases para nossa compreensão atual do efeito estufa. Seu trabalho, de 1856, não apenas prognosticou os perigos das emissões de gases de efeito estufa, mas também desafiou as normas sociais da época, enfrentando obstáculos significativos devido ao seu gênero. Acreditem, ela simplesmente não pode apresentar o seu trabalho pelo fato de ser mulher! Naquela altura, as mulheres eram em grande parte excluídas da comunidade científica e as suas contribuições eram frequentemente ignoradas ou rejeitadas. Confirmem no artigo "o problema está na ciência, nas mulheres ou no aquecimento!"

A experiência dela demonstrava como diferentes gases, incluindo o dióxido de carbono, poderiam afetar a temperatura da Terra. Ela expos alguns frascos com diferentes gases à luz solar e mediu a temperatura, e assim, descobriu que o dióxido de carbono, quando exposto à luz solar, causava o maior aumento de temperatura em comparação com outros gases.

Apesar das barreiras que enfrentou, suas descobertas ecoam através do tempo, lembrando-nos da importância de valorizar e reconhecer as contribuições das mulheres na ciência e na luta contra as mudanças climáticas.


A questão dos fertilizantes

Você já deve ter ouvido falar sobre o problema dos agrotóxicos não? Pois é, a pioneira no estudo dos impactos dos pesticidas no ser humano e na natureza é Rachel Carson, uma cientista e autora do livro 'Silent Spring' (Nosso Futuro Comum) em 1962. Ela lançou os fundamentos do movimento ambiental moderno, alertando o mundo sobre os perigos dos pesticidas, notadamente o DDT. Graças ao seu trabalho, foi desencadeada uma revolução na proteção ambiental.

Ela documentou meticulosamente os efeitos nocivos dos pesticidas no meio ambiente, na vida selvagem e na saúde humana. Ela destacou como o uso indiscriminado de pesticidas estava levando ao declínio das populações de aves, contaminando fontes de água e apresentando sérios riscos à saúde humana. O livro de Carson desafiou a visão predominante na época de que os pesticidas eram seguros e necessários para a produtividade agrícola.

Apesar de enfrentar reações adversas e críticas da indústria química, o livro de Carson despertou preocupação pública generalizada e levou a um maior questionamento sobre o uso de pesticidas. Em última análise, resultou na proibição do DDT nos Estados Unidos e no estabelecimento da Agência de Proteção Ambiental (EPA) em 1970.

  Só que o legado dela vai muito além do livro “Primavera Silenciosa”. Como cientista e escritora pioneira, ela abriu caminho para uma maior consciência das questões ambientais e inspirou gerações de ativistas, cientistas e decisores políticos a tomarem medidas para proteger o mundo natural. A coragem, a integridade e o compromisso de Carson com a gestão ambiental continuam a inspirar ambientalistas de todo o mundo até hoje.


Sobre o nosso futuro

A agitação provocada por Carson, influenciou os relatórios seminais "Limites do Crescimento" (1972) e "Nosso Futuro Comum" (1987) que ratificou o conceito de desenvolvimento sustentável e moldou a política ambiental global nas décadas seguintes.

Aliás foi uma outra mulher que conduziu os estudos que levaram à publicação do Relatório Nosso Futuro Comum. Enquanto servia como Primeira-Ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland liderou uma comissão da ONU que acabou sendo conhecida como Comissão Brundtland. O relatório histórico não apenas articulou uma visão abrangente para a proteção do meio ambiente, mas também destacou a interconexão entre questões ambientais, econômicas e sociais.

O fato de Gro Harlem Brundtland ser médica teve uma influência significativa em sua abordagem e compreensão da sustentabilidade. Sua formação em medicina e sua experiência como Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) a ajudaram a compreender profundamente a interconexão entre saúde humana, bem-estar e meio ambiente. Ela estava bem ciente dos impactos negativos que a degradação ambiental e a falta de desenvolvimento sustentável podem ter na saúde das pessoas. Ela compreendia os vínculos entre poluição, escassez de recursos naturais, pobreza e problemas de saúde pública, como doenças respiratórias, contaminação de água, desnutrição e muitos outros.

Essa perspectiva a levou a advogar não apenas por medidas de conservação ambiental, mas também por políticas que abordassem as causas subjacentes das disparidades de saúde e desenvolvimento. Gro Brundtland viu a sustentabilidade não apenas como uma questão ambiental, mas também como uma questão de justiça social, equidade e saúde pública. O legado de Brundtland continua a inspirar líderes e ativistas em todo o mundo a buscar soluções sustentáveis para os desafios globais.


Da floresta para o mundo...

Nascida na floresta amazônica, Marina Silva dedicou sua vida à proteção da biodiversidade e dos direitos dos povos indígenas. Ela começou como seringueira e ativista ao lado de Chico Mendes, defendendo os direitos dos seringueiros e das comunidades indígenas na Amazônia e desempenhou um papel fundamental no movimento para proteger a floresta tropical e os seus habitantes indígenas da desflorestação e da exploração.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o Senado brasileiro, onde continuou a defender causas ambientais e a defender políticas de desenvolvimento sustentável. Ela ganhou reconhecimento internacional por seus esforços no combate ao desmatamento e na promoção da conservação da Amazônia, ganhando o apelido de “A Dama de Ferro da Floresta”. Em 2003, foi nomeada Ministra do Meio Ambiente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante seu mandato, ela implementou uma série de políticas para fortalecer a proteção ambiental, incluindo medidas para combater a extração ilegal de madeira, expandir áreas protegidas e promover o desenvolvimento sustentável na região amazônica.

Uma de suas conquistas mais significativas, como Ministra do Meio Ambiente, foi seu papel na negociação do Fundo Amazônia, um mecanismo financeiro para apoiar iniciativas de conservação e desenvolvimento sustentável na Amazônia. O fundo mobilizou milhares de milhões de dólares em financiamento internacional para projetos destinados a reduzir a desflorestação, apoiar comunidades indígenas e promover meios de subsistência alternativos na região.

 Como Ministra do Meio Ambiente do Brasil, ela implementou políticas inovadoras para combater o desmatamento e promover o desenvolvimento sustentável na região. Sua liderança inspiradora e compromisso incansável com a conservação ambiental continuam a motivar milhares de pessoas a se envolverem na proteção do nosso planeta.


Já ganhamos até um prêmio Nobel!

Agora veja como Elinor Ostrom, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Economia em 2009, revolucionou nossa compreensão da governança dos recursos comuns. Ela foi uma economista política americana reconhecida por seu trabalho na governança de recursos comuns. Os recursos comuns são bens ou sistemas que estão disponíveis para um grupo de indivíduos, mas a sua utilização por um indivíduo diminui a disponibilidade ou qualidade do recurso para outros. Os exemplos incluem pesca, florestas, sistemas de irrigação e bacias hidrográficas subterrâneas.

 

A pesquisa de Ostrom desafiou a sabedoria convencional de que os recursos comuns estavam inevitavelmente sujeitos ao uso excessivo e ao esgotamento, muitas vezes referido como a “tragédia dos bens comuns”. Através de extensos estudos de campo e pesquisas empíricas, ela identificou um conjunto de princípios e princípios de design que comunidades em todo o mundo têm usado para gerir com sucesso os recursos comuns de forma sustentável a longo prazo.

 

Uma das principais conclusões de Ostrom foi que a gestão eficaz dos recursos comuns surge muitas vezes de baixo para cima, através da ação colectiva dos próprios utilizadores. Ela descobriu que quando os indivíduos que dependem de um recurso estão diretamente envolvidos na sua gestão e têm interesse na sua sustentabilidade a longo prazo, é mais provável que desenvolvam regras, normas e instituições que evitem a utilização excessiva e garantam o acesso equitativo.

 

O trabalho de Ostrom teve um impacto profundo na nossa compreensão da governança ambiental e influenciou políticas e práticas em todo o mundo. A sua pesquisa mostrou que as soluções para os desafios ambientais nem sempre têm de provir de regulamentação ou privatização de cima para baixo, mas podem surgir do conhecimento, da criatividade e da cooperação das comunidades locais. O legado de Ostrom continua a inspirar investigadores, decisores políticos e profissionais que procuram enfrentar os complexos desafios da sustentabilidade ambiental e da governação de recursos.


Não é uma questão de gênero!


Um olhar mais aprofundado em algumas mulheres extraordinárias que moldaram o movimento ambiental ao longo da história, fica claro que o ativismo ambiental não é uma questão de gênero, mas sim de ação e comprometimento. Das pioneiras como Eunice Foote, Rachel Carson e Gro Harlem Brundtland às líderes contemporâneas como Marina Silva e Elinor Ostrom, estas mulheres nos inspiram a reconhecer a importância da diversidade de gênero na busca por um futuro sustentável.

Seja na ciência, na política, ou no ativismo de base, homens e mulheres têm desempenhado papéis cruciais na proteção do nosso planeta. Assim, ao refletir sobre a pergunta inicial 'Será que as mulheres são mais sustentáveis que os homens?' É evidente que todos, independentemente do gênero, têm a responsabilidade e o poder de fazer a diferença.

4 comentários


Quantas histórias relevantes e incentivadoras!! Mais do que importantes, as práticas da sustentabilidade são vitais para todo o planeta!!!


Obrigado, Denise, por compartilhar e disseminar exemplos de ações sustentáveis.

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Reinaldo Haas
Reinaldo Haas
14 de mar.

Aqui estão algumas mulheres ecologistas importantes, incluindo jovens ativistas:

  1. Wangari Maathai: Quase sozinha, Maathai é responsável por trazer as árvores de volta à paisagem queniana. Ela fundou o Movimento do Cinturão Verde na década de 1970, incentivando os quenianos a replantar árvores que haviam sido cortadas para lenha, uso em fazendas ou plantações.

  1. Rachel Carson: Carson era ecologista antes mesmo de a palavra ser definida. Na década de 1960, ela escreveu o livro “Silent Spring”, que chamou a atenção nacional para a questão da contaminação por pesticidas e o efeito que ela estava tendo no planeta.

  1. Dian Fossey, Jane Goodall e Birutė Galdikas: Essas três mulheres mudaram a maneira como o mundo olhava para os primatas. Fossey estudou extensivamente o…

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Reinaldo Haas
Reinaldo Haas
14 de mar.

O texto me chamou a atenção, mas percebi que poderia ser aprimorado. Faltou mencionar a contribuição de mulheres importantes de todas as idades, origens e ideologias políticas, sejam elas jovens, idosas, africanas, de esquerda ou direita.

Além disso, é crucial abordar como a sustentabilidade é comercializada para as mulheres. Não tenho nada contra o comércio, mas é importante destacar que, assim como o filme Barbie nos cinemas critica a maneira como a beleza feminina é vendida e manipulada pelo mercado, a sustentabilidade também pode ser usada de maneira semelhante.

Existe sempre a questão de garantir que todos se enquadrem em uma plataforma comum. Isso significa que devemos reconhecer e valorizar a diversidade e a individualidade, ao mesmo tempo em que…

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Bem interessante!

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